Minotauro, Ariadne, Picasso e Jessye Norman

Fiquei mega ultra emocionada em encontrar no Santo YouTube esse trechinho do ‘Sítio do Pica-Pau Amarelo’, com direito a vinheta de abertura e tudo. Foi neste episódio, no início da década de 80 que ouvi e vi pela 1ª vez a mitológica lenda do Minotauro.

Uma única vez foi o bastante para que ficasse para sempre BEM impressionada e extremamente curiosa com essa tal mitologia grega que fazia nascer gente com cabeça de touro, construia um labirinto cheio de mistério e oferecia sacrifícios humanos.

[Acho bem bacana ensinar para crianças mitologia grega cheia de monstros humanos, assassinatos, planos, pragas rogadas por deuses e semi-deuses, romance, conflitos e rituais até porque o aspecto fantástico suaviza o peso das ações mas não omite o elemento 'trágico']

Certamente meu encanto por essa história e outras mitologias tem tudo a ver com arquétipos, mesmo porque essas histórias são construídas com o objetivo de ’saldo’ moral e cada um instântaneamente se identifica e se liga à uma figura da história. Óbvio! igualzinho cinema de Hollywood. Mas nem me aventuro nessa prosa interpretativa porque tô bem longe de ser uma Jean-Pierre Vernant  ou então uma Joseph Campbell e todo o pouco que li é insulficiente para loucas elucubrações sobre o poder dos mitos….

Só sei que de tão fascinada pela cultura grega fui fazer Filosofia na USP mas aí vi que o papo era outro, fui (obrigada) direto para a escola francesa cartesiana e meus greguinhos ficaram pra depois…mas não tão depois assim…Como também cursava Jornalismo na Cásper Líbero pude saciar minha sede de Grécia com as leituras das tragédias conduzidas pela mestra Nanami Sato e suas sábias observações.

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Durante a exposição Picasso na Oca em 2004 tive a oportunidade de trabalhar nela e tentar decifrar diariamente por meses o desenho (guache e nanquim sobre papel) Minotauro y yegua muerta frente a una gruta y niña con velo, 1936. Preste atenção na data, fim da década 30, muito antes dele entrar na amada e/ou odiada fase ‘Erótica’ década de 1960 e pintar e bordar com Ariadnes variadas, mil minotauros e assim subverter a própria lógica anteriormente construída numa gravura como esta. [assunto pra outro post - cooming soon]

Aqui em 36 a história é outra mesmo. A vida de casado com a bailarina russa Olga Khokhlova não vai bem e Picasso com mais de trinta! conhece a jovem, jovencita mesmo a moça francesa Marie-Thérèse Walter, 17 anos. Decide então se separar da russa dura na queda (Olga nunca concedeu o divórcio a Picasso, mesmo ele se casando com uma e outra!) e aí que a coisa complica ao ponto de nunca ter havido paz nesse relacionamento de Picasso que durou quase 10 anos e gerou a filha Maya.

Nesse desenho, interpreta-se muito em estilo livre cruzando vida pessoal e obra, eu por exemplo, pelo que li e pesquisei toco meu jazz também: Dentro da gruta estariam as maõzinhas de Olga implorando por Picasso, o Minotauro é o próprio estrangulandor da égua (o título da gravura deixa explícito que não é um cavalo mas uma fêmea da espécie) Minotauro pede calma eu já vou pegar você à mocinha Ariadne, ops Marie-Thérèse, pura, casta e até com veuzinho  que está protegida por um muro de pedra que claramente forma um punho cerrado. Ah a égua, ela sim pode representar toda e qualquer mulher na visão do pintor que é subjugada a ele, claro.

Olhe a o detalhe da mão que pede calma, é anatomicamente humana e já a que pega a égua é mais bruta, de fera mesmo, de pedra.

Esse trabalho faz parte do acervo do Museu Picasso de Paris e eu amaria poder vê-la agora. RIGHT NOW.

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Lembrei agora que no subsolo da Oca durante a exposição havia um ‘labirintinho’ cheio de espelhos e com umas plotagens do homem-touro em algumas paredes, até dava pra se divertir e bancar a Ariadne.

Ariadne e sua (i)lógica vida é bem explicada nesse artigo em inglês. A pobre mesmo sendo filha do rei Minos, o que tudo que tocava virava ouro ainda vai parar como oferenda para o boizão amaldiçoado pelo pai, perdida dentro de um labirinto cheia de planos vai lá corajosa ou com medo de ficar encalhada e mata o bicho junto com o seu herói amado Teseu, cujo nome eu já confundi com Perseu, que é quem mata a Medusa, ou mata as cobras da cabeça dela, não lembro e tô com preguiça de procurar no Google. Enfim, depois de matar o Minotauro com Teseu, pouco depois ela é largada por ele até sofrer, sofrer, sofrer duras penas sozinha na ilha de Naxos e ser finalmente ser resgatada pelo D. Juan dos deuses, Dionísio (ou Baco) e virar sua amante, ufa, grand finale!

Pra fechar um pocket show!!! da Jessye Norman perfeita como a heroína em ‘Ariadne em Naxos’, de Strauss (1912), uma ópera bem dramática porém não menos divertida com um tratamento especial para que a apresentação da saga de abandono termine com a conquista do amor dionisíaco!

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3 comments ↓

#1 Flavia on 02.28.09 at 10:14 pm

Bravo!!!
Ai, o que é que eu vou dizer hein?
1. Durante muito tempo acreditei nos deuses gregos (adora Palas Atena POR CAUSA DOS 12 trabalhos de Hércules do Monteiro Lobato);
2. Perseu matou a Medusa - com o reflexo dela no escudo. E há uma explicação qualquer quanto a isso (preciso lembrar onde li essa história - tem a ver com nos enfrentarmos ou algo que o valha). E se não me engano, da cabeça da Medusa saiu o Pégaso, o cavalo alado que passou a ser de Perseu.
Ah sim! Ambos fizeram parte dos Argonautas - que eram um bando de playboys da Hélade que como não tinham nada pra fazer, saíam por lá matando monstros, enchendo a cara e defenestrando moçoilas indefesas. Uma coisa jet-set da antiguidade (e aposto que vc tá rinso agora).
3. Vi essa exposição do Picasso - foi uma daquelas vistas na hora do almoço do dia das mães (truquezinho básico, hehehe)
4.Faltou só a ala das baianas pra completar tudo né?

hehehe!! bisous!

#2 admin on 02.28.09 at 10:42 pm

Claro q eu tava rindo! OBVIO!!!

Vc tbem é louquinha lady! piradaça das aldeias de Babalu! Aliás que venha o mito de Babalu!!!

Sim, amiga! eu Lili sou a admin e não consigo mudar essa coisa! kkk

#3 Eduardo on 03.01.09 at 2:11 pm

Meu amor, que deliciosas associações vc fez neste post, tal como um labirinto de idéias ao qual me senti convidado a entrar e divagar com leveza graças à linha ariadiana que vc deixou.

O episódio do Sítio do Pica-Pau Amarelo é fantástico, vale destacar o belo concept design da abertura. Dona Benta conta a sinistra história do mito deixando o ambiente tenso para o Clímax: a aparição do Minotauro na cozinha da Tia Anastácia. Sinistríssimo!

Sempre me fascinei pelo aspecto mundano e caráter prático das mitologias, sobretudo a grega, de especial beleza criativa.

O guache do Picasso eu também vi (com vc) várias vezes na Oca. Pintura forte de traços vigorosos. Inspiradora. E a leitura que vc fez dela também. Pobre Olga. Parece ter terminado como Ariadne, afogada no vinho.

Adorei. Amo. Bj. Du.

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