Essa foi a cena da novela Caminho da Índias em que Bahuan, Marcio Garcia conta a Maya, Juliana Paes que é um dalit e não um brâmane, o que representa muito mais que só ‘coisas de castas que não bicam’.
Esse fator Romeu e Julieta quando é protagonizado por dois lindos tem seu romantismo, mas quando a gente vai ver o que é de verdade ser um dalit na Índia, aí a coisa assusta. Check it out:
Eu fiz uma rápida pesquisinha sobre como são tratados os dalits e fiquei estarrecida MESMO. Eu que me acho esclarecida e que sei o que acontece no mundo, leio jornal, internet, NUNCA SOUBE que tipo de coisas ainda aconteciam ainda em 2009 na Índia. [claro que sabia das castas e de alguns costumes mas NUNCA soube a que ponto chegava essa exclusão]
Gloria Perez, autora da novela que apresentou os dalits ao Brasil, em seu blog escreve:‘quem tocar nele, na sombra dele que seja, fica impuro, e torna sua casa e sua família impuras também. Vai precisar fazer rituais ou banhar-se nas águas sagradas do Ganges para purificar-se de novo.’
E isso é só um detalhe!
Real facts about dalits:
• crianças dalits são freqüentemente forçadas a sentarem de costas nas suas salas de aula, ou mesmo fora da sala por isso 98% são analfabetos
• a taxa de mortalidade infantil é perto de 10%
• as crianças dalits abaixo de 4 anos estão muito abaixo do peso
• 300 milhões de dalits vivem em Índia
• 60 milhões de dalits são explorados através do trabalho forçado em países hindus
• os dalits são proibidos de beber da mesma água que os de castas mais altas
(Fonte: Dalit Awakening)
Se tiver interessado na minha conversa acompanhe a história em que eu conto como encontrei uma dalit à brasileira na sexta-feira passada em São Paulo.
***
São Paulo, avenida Rebouças x Cardeal Arcoverde, sexta-feira, 15h30, temperatura de 30º como se fossem 300º e o céu ficando num tom preto chumbo com nuvens quase não se aguentando. Nesse belíssimo cenário: eu dirigindo pensativa depois de um teste de VT na Record agora já estava parada no posto de gasolina esperando atendimento. Dentro do carro junto comigo uma sacolona com roupas e sapatos para doar depois da Grande Faxina Anual de Carnaval.
Fato era que o mundo queria chegar antes e ninguém queria estar na rua quando a maldita chuva despencasse, [dava pra sentir a puta tensão no ar entre os motoristas e os pedestres nas ruas. eu sinti. vc não?] E oposta à essa pressa foi proporcional a lentidão do posto minha gente. E de tão lenta essa lentidão, deu tempo de causar e conhecer uma dalit, brasileira, assim numa simples paradinha para completar a água (shame on me tinha esquecido de colocar há tempos).
Eis que o posto estava obviamente cheio de carros e motoristas com pressa. Muita pressa! Parecia aqueles filmes de apocalipse que as pessoas começam a sair das cidades e o caos se estabelece, assim estava o posto com apenas UM FRENTISTA, que também era caixa e também cuidava da loja de conveniência. UMA PESSOA para 8 bombas de gasolina e lojinha numa área über movimentada. [uma frase de memorável bom senso de um motorista que saia na loja de conveniência para outro que estava entrando: - olha se a gente ficar comprando coisas aqui, ele não vai conseguir abastecer nossos carros!!! MORRI]
Mas calma tudo pode piorar, pois nesse momento também chegou a entrega de gelo, daqueles que vendem em pacotões para BIG PARTIES [agree @ladyrasta] e o FRENTISTA tinha que receber o pedido. JURO que comecei a rir, mas gargargalhar mesmo total descontrol. E ria de moi mesmo, já que eu esperava pacientemente, bem ao contrário da minha índole ‘vou contar até 3′ quando o único FRENTISTA encheu o regador da água [não sei como chama aquilo] numa piazinha dentro da loja de conveniência [bem conveniente], porque até então eu mesma já tinha aberto o capô e o tanquinho da água mais fervendo da Terra.
[outro detalhe que quase passou mais acho que ilustra do outro lado da calçada do posto, uma blitz da PM parando zilhares de motoboys e dando aquela geral na galere...tenso, eu disse que o clima estava tenso........]
Well… eis que aparece no posto uma mulher que não precisava dizer nada pra que todos já soubessem que ela era sem-teto, sem-nada e precisando de tudo. Umas sacolinhas com latinhas amassadas numa mão enquanto a outra remexia o lixo. Ela não olhava pra ninguém e não pediu nada também, pior ela ainda se afastava como se fosse ‘em respeito’ a quem passasse perto dela. Olha isso!
Em meu cérebro iniciou-se a operação entrega da sacola de roupas, sai do carro e antes de ser indelicada e levar a sacola simplesmente direto [sei lá eu penso assim sim] fui perguntar se ela queria receber as roupas. Claro que ela quis, voltei com ela CONVERSANDO até o meu para entregar a sacola. Ela me contou que mora embaixo da ponte da Eusébio Matoso com uns ‘meninos’ e sempre morou na rua, disse que tá bem difícil conseguir comer ‘por aí’ e que tudo eles dividem, uma lata de coca-cola dá pra 5 pessoas e que quando alguém topa, ela capina ‘uns matos’ ela ganha uns 15 reais.
Dei a sacolona e ela agradeceu. Na sacola tinha um tênis do @souzacampus bem em cima de tudo e ela me perguntou preocupada se só tinha roupa para homem porque ela sim estava precisando de roupas novas pra ficar mais bonita. Ainda bem que tinham roupas minhas também! Fiquei de prestar atenção quando passasse pela ponte pra quem sabe levar mais alguma coisa.
O lance é que desde a 1ªaproximação com ela fui olhada pelos outros motoristas como se estive na Índia e ela fosse um dalit. Foi estranho porque apesar de toda a preocupação daquelas pessoas para serem atendidas no posto, TODAS tiveram tempo de observar a cena. Acho que isso resume bem todo meu blábláblá, porque existem dalits à brasileira aos montes em São Paulo, a diferença é que aqui no Brasil a gente não tem uma desculpa milenar para excluir é só preconceito e omissão mesmo.















6 comments ↓
Os paulistanos que se sentirem impuros ao trombarem com os “dalits”sem-teto, podem lavar-se nas águas do Rio Pinheiros.
Não, eles devem se banhar no Rio Tietê que é o que mais se aproxima do Ganges.
=\ F**a … e belo post
=]
[...] Os dalits daqui e os de lá » Liliane Ferrari - Um ótimo post da Liliane Ferrari sobre os dalits, termo que os brasileiros só estão conhecendo agora com a novela, mas que existem e sempre existiram em todos os lugares, não são “exclusividade” da Índia. [...]
Concordo com a Fernanda. O Rio Tietê de São Paulo é bem parecido com o Ganges. Os dois são limpinhos, limpinhos…
Por incrível que pareça, nunca tinha ouvido falar dos Dalits. Achei que fosse exagero da novela, comecei a ler sobre isso e estou chocada!!
Concordo que no Brasil também temos os “dalits”, mas na Índia…a coisa é feeeeeeia mesmo!!
Lendo seu post, fiquei pensando sobre o que poderíamos fazer para ajudar aquele povo. Se alguém souber de algum movimento, alguma possibilidade de ajudar os Dalits, peço que divulguem.
Estou chocada com um vídeo que acabei de ver sobre uma senhora “dalit”que coleta fezes numa rua da Índia, usada como banheiro público. Um horror!!
Sinceramente, não sei como os países todos não se movem para acabar com tanta crueldade.
Desculpem o exagero do desabafo.
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