‘Paraíso’ - remake

Acredito que Paraíso tenha sido a única novela da TV Globo que meu pai acompanhou de verdade. Depois só me lembro de assistirmos juntos no sofá a Pantanal da TV Manchete, porque meu pai não gostava de novela, ele só era um rapaz nostálgico do interior que vivia na cidade grande e ficou fã de Benedito Ruy Barbosa.

Em 1982 eu tinha 7 anos bem urbanos e foi assistindo a abertura de Paraíso que ele me ensinou o que era fazer um contraponto. Simplificando para uma menininha, ele me mostrou que o campo era o oposto da cidade e a moto que o Kadu Moliterno dirigia na cidade seria um contraponto ao cavalo do campo, por exemplo. [O campo então era o 'ideal' porque eu estava interessada em andar a cavalo, e se existia algo além do horizonte da cidade de São Paulo eu queria experimentar também para saber quão diferente poderia ser]

Foi nessa época que comecei a viajar para a fazenda do meu tio que ficava em Aparecida do Taboado-MS e me sentia na própria novela! Lá era o ‘Paraíso’ porque tinha peões, cavalos e mato. Toda referência de interior que eu tinha havia sido formada pelas explicações do meu pai em cima daquela ‘historinha’ que eu assitia na tv [semioticamente falando a novela marcou de verdade a construção dos meus signos]

***

Como recordar é re-viver diferente, vem aí o remake de Paraíso, versão 2009 adaptada, a nova novela das 18h. Uma responsa fazer remake, ainda mais quando na 1ª versão tiveram, por exemplo, atuações memoráveis como a de Eloísa Mafalda interpretando a beata mais beata de todas e que de tão beata foi outra boa beata em Roque Santeiro e depois de novo beata em Pedra sobre Pedra de 1992. Beata de vida longa.

Sérgio Reis então! nossa era um estreiante na teledramaturgia em 1982, hoje a gente sabe que ele pegou gosto e já fez zilhares delas e agora quem faz as vezes é outro estreiante em novelas, o cantor sertanejo Daniel [ será que o Daniel vai ficar tbém malaco no gênero novelístico e virar 'cantor e ator'? filme ele já fez.]

Vale a pena ver de novo! Kadu Moliterno que foi o protagonista da trama original como galã agro-surfista, agora no remake encarna um dono de bar mais tiozão, duro na queda e à prova de amor. E os protagonistas Santinha (Nathalia Dill) e Zé Eleutério (Eriberto Leão) que antes eram vizinhos, nessa adaptação se conhecem casualmente e é amor à primeira vista [sure!]

No remake as filmagens aconteceram na Chapada dos Guimarães e na Bahia [espere por aquelas cenas de babar como sempre], já na 1ª versão da novela as cenas do campo foram rodadas em Vassouras-RJ.

Outra coisa: é muito legal olhar tempos depois para uma novela e ver como o autor faz reaparecer elementos em sua narrativa. Foi nessa novela a 1ª vez que o cramulhão [diabinho de garrafa] aparece na ‘mitologia rural’ de Benedito Ruy Barbosa. [E como é genial essa figura, acho até que o cramulhão tem  status de personagem]

Mas fundamentalmente o que está diferente de lá pra cá é que agora comemorarei 34 anos no dia da estréia da novela e não tenho mais o colo do meu pai para assistir a ‘historinha’, as utopias bucólicas da infância também ficaram para trás, sou apenas uma mulher totalmente urbana que recorda as novelas ‘rurais’ como quem preserva as memórias de seu pai [agora com sua neta no colo].

***

Se já viu reveja, se nunca viu assista agora a abertura da 1ª versão da novela Paraíso nos idos 1982. E se quiser acompanhar a produça da nova novela, versão 2009 clica aqui. [aliás achei bem fofo Edmara Barbosa, filha do próprio Bendito fazer a adaptação do remake]

P.S. que não posso deixar passar batido: me apaixonei pela voz do deuso Ney Matogrosso depois de ouvir essa abertura. Há 27 anos eu ainda cantava os versos da canção que tem um toque de Leminski tudo errado! [eu era criancinha e devia ser fofa cantando errado] e era assim mais ou menos:

Precisava não ah sei lá
Precisava não promessas de lá
Precisava não ah sei lá
A felicidade é um rio q vai
O rio que vai me levar
Não passa na sua cidade
O paraíso, o paraíso começa
É só começar num sorriso

O correto é:

Não precisava não acenar
Não precisava não promessas demais
Não precisava não acenar
Muita felicidade é um rio que vai
O rio que vai, o rio que vai me levar
Não passa na sua cidade
O paraíso, o paraíso começa
É só começar um sorriso

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[tenho estado nostálgica nos últimos posts, não? e por coincidência ou não o que me desperta fortes lembranças são programas de TV dos anos 80]

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10 comments ↓

#1 Sam Shiraishi on 03.03.09 at 4:45 am

Lili, querida, que delicia de post. Incrivel como temos estas construções de metalinguagem, as mesmas que provavelmente os nossos terão com Charlie e Lola e cia!
Adorei a construção Leminski na musica, é a cara do Giorgio. Vou apresentar os haicais para ele.
Beijos e espero que nos vejamos na festa. :)

#2 Ana Claudia Bessa on 03.03.09 at 6:10 am

Liliane, em 82 eu tinha 10 anos mas como eu morava no interior de Minas, a vida era bem menos urbana e eu tinha , em parte, relação com essa vida. A novela já me tocava mais no romantismo. Não tenho mais a mesma disposição para ver novelas mas quem sabe não vejo alguns capítulos para relembrar essa época?

#3 Eduardo on 03.03.09 at 6:35 am

Adoro remake. Visões diferentes de uma mesma história. Ou uma nova história no universo paralelo.

Ver um remake de um filme mais antigo que a gente não é tão nostálgico quanto um de nossa infância e adolescência. O legal é a viagem no (nosso) tempo que o remake proporciona.

#4 Zé Luiz on 03.03.09 at 10:38 pm

Liliane, fiquei arrepiado ao ler esse teu post. Pois foi exatamente c/ essa canção (um poema de Leminski musicado por Moraes Moreira) que eu “notei” a beleza da voz do gde Ney Matogrosso, e tornei-me, a partir daí, um grande fã dele. A interpretação de Ney e o arranjo (de Cesar Camargo Mariano) são lindos demais.
Não sei qual será o tema de abertura do tal remake, faz dificilmente estará a altura da versão de 1982.

#5 Zé Luiz on 03.03.09 at 10:41 pm

Lili, desculpe: ao invés de “faz” leia-se “mas”… rrrsss

#6 Festa de lançamento: Paraíso | Zé Offline: Parodiando o mundo online on 03.09.09 at 2:38 pm

[...] ou seja, eu nem sabia da existência dela (eu nasci no ano seguinte, só para constar). Pelo que Liliane Ferrari escreveu e pelo que a Renata Ruiz me contou durante a festa, o Daniel - é ele mesmo: cantor de sertanejo e [...]

#7 Paraíso, festa do interior — Liliane Ferrari on 03.10.09 at 1:19 pm

[...] lançamento da nova novela das seis, o remake Paraíso. Estava animadíssima porque já tinha feito um post sobre a novela que me diverti muito escrevendo. A festa, claro, prometia todo clima rural gostoso [olha eu [...]

#8 Adriana on 03.28.09 at 1:03 pm

Em 1982 eu tinha 04 anos, mas recordo de ter passado no Vale a Pena Ver de Novo, e valeu mesmo! Eu adorava a musica da abertura, mas só ficava no 1º verso e eu queria ser a Santinha rsrsrs Agora vou relembrando de um período muito bom da minha vida e juntando a tudo isso meu ídolo Daniel.
Adorei seu post. Um grande abraço!

#9 Fique por dentro Ferrari » Blog Archive » ‘Paraíso’ - remake — Liliane Ferrari on 03.30.09 at 10:14 pm

[...] já tinha feito um post sobre a novela que me diverti muito escrevendo. … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

#10 Denilson Carlos on 04.11.09 at 8:29 pm

Liliane! fico muiti feliz com este poste seu, sou musico acompanhei ainda como um simples garoto está grande novela, só fiquei triste com a mudança da trilha sonóra que subistituiram. um grande arrajo musical e cantado por um grande interprete que é o Ney Matogrosso. mas valeu a sua idéia muito boa. isto é sinal de memoria cutural muito grande parabens!
qualquer coisa o email está aí é só entrar em contato que terei um grande prazer em corresponder.

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