A mulher e a opressão pela linguagem

Amanhã é dia de Luluzinha Camp [oba] e na nossa comunidade de mulheres desde ontem rolando uma discussão bem oportuna sobre mais um web concurso/eleição whatever que a meu ver, vindo de quem o promove [e eu respeito],  deveria ser top postura contemporânea mas acaba caindo no sexismo bobo do mainstream quando categoriza ‘musa’.

A parte disso, uma outra questão, está nas considerações e justificativas sobre o uso do genérico termo ‘blogueirO’ no  web concurso/eleição whatever, que resvala na forma como usamos a linguagem. [não vou me estender com Wittgenstein agora, até pq quero publicar rapidinho esse trem aqui...mas tem gente que acha que esse assunto de sexo e linguagem não tem nexo e é pura bobagem e frescura, mas não é. Linguagem é uma parada forte e tem mais poder do que o senso-comum pode imaginar]

Daí que faz tempo que minha amiga Letícia Massula [que além de advogada porreta- tem o dedo dela na Lei Maria da Penha- é a anfitriã mais cozy do mundo na Cozinha da Matilde] me mandou uns textos que pedi para publicar sobre a questão da mulher. E esse texto [sensacional] que escolhi tem tudo a ver com o que estamos discutindo. Vale a leitura. Que acham mulheres?

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Até tu, Gil? por Letícia Massula

A recusa à ideologia machista, que implica necessariamente a recriação da linguagem, faz parte do sonho possível em favor da mudança do mundo

Paulo Freire

Dessa vez foi ontem, digo dessa, porque não foi a primeira vez, nem será, por enquanto, a última… estava na entrega do prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e todas as pessoas que fizeram o uso da palavra usaram o plural no masculino, até o Ministro da Cultura Gilberto Gil. Pode parecer bobagem, mas foram tantos “boa noite a todos”, “solicitamos a todos que desliguem os celulares”, “agradecemos a presença de todos” que em certo momento tive vontade de sair, já que como “toda” eu era nada ali.

Não estou aqui fazendo uma crítica pessoal ao Ministro Gilberto Gil, tampouco o acusando de machista, não seria justa tal crítica a quem compôs, entre outras canções, “Super Homem”, verdadeiro hino ao feminino. O que quero demonstrar, é que o modelo cultural patriarcal em que vivemos está tão arraigado que até alguém como Gil, que ocupa justamente a pasta da cultura, acaba incorporando padrões culturais que excluem as mulheres, vale dizer, metade da população.

Se como disse Caetano “minha pátria é minha língua”, quero uma pátria/mátria que não me exclua, começando pela linguagem, importante instrumento de libertação, mas que também pode ser utilizada como ferramenta de opressão. E em opressão, nós, mulheres, somos escoladas. Em 1997 o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) criou dois índices para medir as diferenças por gênero: o Índice de Desenvolvimento por Gênero (IDG) e o Índice de Poder por Gênero (IPG). Quando pela primeira vez os dados sobre as mulheres foram analisados de forma separada o PNUD sustentou em seu Relatório do Desenvolvimento Humano de 1997 que “Nenhuma sociedade trata suas mulheres tão bem quanto seus homens”.

A linguagem tem tudo a ver com esse dado, na medida em que invisibiliza cotidianamente as mulheres na sociedade e na história. Mulheres são nada se nunca estão incluídas na linguagem, daí para exclusão do poder, da vida pública, do mercado de trabalho é um pulo. Segundo Vera Vieira, coordenadora executiva da Rede Mulher de Educação, quando se diz “A salvação do planeta está nas mãos dos homens”, ao invés de “A salvação do planeta está nas mãos da humanidade”, reflete-se a posição que o homem vem ocupando na história, reforçando-se seu papel hierárquico e as relações de poder e dominação masculina na sociedade.

O educador Paulo Freire, em sua obra a Pedagogia da Esperança - um reencontro com a Pedagogia do oprimido faz um mea culpa e reconhece em sua obra o traço machista arraigado em nossa cultura, diz ele: “Em certo momento de minhas tentativas, puramente ideológicas, de justificar a mim mesmo, a linguagem machista que usava, percebi a mentira ou a ocultação da verdade que havia na afirmação: ‘Quando falo homem, a mulher está incluída’. E por que os homens não se acham incluídos quando dizemos: ‘As mulheres estão decididas a mudar o mundo’? (…) A discriminação da mulher, expressada e feita pelo discurso machista e encarnada em práticas concretas é uma forma colonial de tratá-la, incompatível, portanto, com qualquer posição progressista, de mulher ou de homem, pouco importa”.

Esse padrão excludente de linguagem não é privilégio da língua portuguesa, nem de países em desenvolvimento, está presente também em outras culturas, e países desenvolvidos, só para exemplificar, em francês não existe palavra que designe professora, existe apenas a palavra professor, no masculino, e, para as mulheres que ousaram professorar cabe a designação “la profeseur” (“a” professor), o mesmo vale para médico “la docteur” (“a” doutor).

Algumas iniciativas vêm sendo apresentadas sobre o tema. O PL 4610/2001 de autoria da Deputada Iara Bernardi (PT-SP) aprovado no plenário do Senado Federal, que prevê a utilização da linguagem inclusiva na legislação e em documentos oficiais. Irônico é que parta justamente da Câmara dos Deputados, que, em que pese ser composta também por 44 deputadas, mantêm em seu nome a menção apenas aos deputados, poderia, a exemplo do Senado, se chamar Câmara Federal, contemplando mulheres e homens. Assim como no caso da Câmara dos Deputados, pequenos ajustes na linguagem fazem toda diferença. O xis da questão é a vontade da sociedade de fazer diferente.

Acabar com a opressão e discriminação ao feminino significa construir bases sólidas de igualdade e não discriminação que aproveitem às futuras gerações - a materialização do desejo de todas as pessoas de viverem em uma sociedade justa, igualitária e inclusiva. Esta construção também começa pela desconstrução da linguagem como está posta, buscando uma alternativa à cultura patriarcal. Uma tarefa para todas as pessoas!

* Letícia Massula é advogada, diretora executiva do Centro Dandara de Promotoras Legais Populares.

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7 comments ↓

#1 fernando tucori on 03.06.09 at 11:05 am

acho que minha memória mais antiga a respeito desse assunto foi quando li “as caçadas de pedrinho”, do monteiro lobato, e a emília esbravejava a respeito da “burrice da língua”. durante um tempo, usei nos meus texto a palavra “camarada” por ser justamente um comum-de-dois.

#2 E se este dia não tivesse sexo? | A vida como a vida quer on 03.09.09 at 10:23 am

[...] apresentadas. Esta reflexão me acometeu novamente na semana passada e se reforçou ao ler o post A mulher e a opressão pela linguagem. E uma boa resposta veio, sem querer, no post Para as mulheres. Para os homens. Para [...]

#3 Suzete Carvalho on 08.05.09 at 9:01 am

Olá, Liliane
Estou fazendo uma pesquisa a respeito da mulher à luz da filosofia e deparei com seu texto que aborda exatamente uma de minhas preocupações: a face discriminatória da linguagem. Encantada, postei hoje uma crônica em meu blog http://www.novaeleusis.blogspot.com , citando o seu texto.
Apareça por lá e deixe um comentário. Meus leitores vão gostar.
Abraços de Suzete Carvalho

#4 Suzete Carvalho on 08.17.10 at 1:13 pm

Olá, Liliane e Letícia

Tenho o prazer de convidá-las para o lançamento do livro que resultou da pesquisa a que me referi no comentário anterior. Trata-se da Coletânea “Mulher, Sociedade e direitos Humanos” com 33 estudos críticos sobre a evolução e as vicissitudes da mulher em todos os âmbitos da vida social. O Compêndio, com 833 páginas, foi realizado (escrito e organizado) por mulheres da atualidade, pesquisadoras de diversas áreas e reune ensaios sobre a Mulher na família, no trabalho, na história, na educação, literatura, patriarcado, políticas públicas, meio ambiente etc.
Como co-autora, contribuo com dois trabalhos: um sobre a Segregação Ocupacional da Mulher (este em co-participação com a Dra.Patrícia T.M.Bertolin, uma das organizadoras do livro) e outro intitulado “Mulher e Filosofia-Uma visão transdisciplinar”.
A Editora é a Rideel e o lançamento se dará no Centro Histórico da Universidade Mackenzie, no dia 26/08, a partir das 18h00. Outras informações podem ser acessadas no Google ou em meu blog http://www.novaeleusis.blgospot.com

#5 Pierre on 09.04.10 at 9:41 am

Antes de tudo, parabéns pelo texto. Adorei muito.
Escute, eu particularmente, é difícil falar opressão do jeito que vcs o acham. Sim existe, mas é pouco. Vamos pegar exemplos bem concretos. No Chile tem uma mulher presidente, na Argentine tem, no Canadá tem uma mulhere responsável. A opressão que existe hoje na sociedade, é para todos, todos passam por ela. É uma sociedade oprimida. Sim, posso entender isso, há algumas coisas mais no caso das mulheres mas não tanto.

http://www.dieucel.blogspot.com

#6 pedro on 02.07.11 at 4:38 pm

Tenho muito repeito e admiração pelo movimento feminista, mas muitas dessas críticas ao “machismo na linguagem” são puro desconhecimento de linguística.

Por exemplo no caso de mulher e homem, e “mulher estar incluído em homem” é que no latim a palavra “homo” significava “ser humano”, “vir” significava homem e “mulier”, mulher. Com a evolução da língua, “vir” caiu em desuso e “homem” passou a ter os dois sentidos: ser humano e ser humano do sexo masculino.

Quanto a “todos” e “todas”, existe uma coisa chamada “forma não-marcada” e “forma marcada”. Por exemplo, poderia se dizer “boa noite a todas e todos”, mas isso seria uma vagareza enorme para o ritmo da maioria dos falantes. Então é necessária uma palavra só. A forma não-marcada, que é também a forma do gênero masculino na língua portuguesa, representa a ideia geral: “todos” tem dois sentidos, “todos” do sexo masculino, e todos de ambos os sexos. A forma “marcada” é o gênero feminino, quando se usa esta forma apenas seres ou coisas do gênero feminino estão incluídos. Já a forma “não-marcada” é o gênero masculino, quando se usa esta forma há dois significados: ou apenas seres e coisas do gênero masculino, ou um grupo misto. E quando se usa o masculino é a mesma coisa: “o falante”, “o professor” etc. há dois significados: quando é uma situação específica, geralmente se refere a um substantivo de gênero masculino, e quando é uma proposição geral é qualquer hipotético falante ou professor, não importando o gênero.

O que estou querendo dizer é que é necessária uma palavra só para os dois gêneros, e como ninguém controla a linguagem humana (e ela se formou faz muito tempo, antes da sociedade patriarcal) ela “optou” pelo masculino, pelo menos na língua portuguesa. Poderia haver outras alternativas, como um terceiro gênero para qualquer pessoa e grupos mistos, mas isso seria complicação demais, ou poderíamos falar “todos e todas” etc sempre, mas também seria complicação demais. Poderia ser que o gênero feminino fosse a forma não marcada, haveria coisas como “a professor” e “o professoro”, mas deixaria na mesma, um gênero sobre o outro, mas isso não significa um opressão, simplesmente é necessária uma forma única, e a língua portuguesa naturalmente estabeleceu o padrão como sendo o gênero masculino.

#7 Marcos Guedes on 07.03.11 at 5:17 pm

E no que se refere a “puro desconhecimento de linguística”, são inúmeras as autoras que pesquisam a fundo sobre o assunto para que possam lutar pela sua causa. E não quero pousar de bom falante e neutro. É óbvio que falo de forma não monitorada, afinal, infelizmente fui educado assim. O que não automatiza minha satisfação ao ler comentários que traçam tais conceitos excludentes como naturais.
Em tempo, belo texto o da Letícia.

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